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Notas Do Editor

Geralmente, quando se compõe, começa-se por imaginar um som, por vezes verifica-se e corrige-se ao piano, depois escreve-se: anota-se. Será que existe uma diferença fundamental entre este método de trabalho tradicional e a composição de música de síntese, feita por computador? Quando estamos diante do monitor do terminal, também imaginamos um som, experimentamo-lo, corrigimo-lo e finalmente armazenamo-lo numa linguagem informática. […] Há um sentimento de estarmos a contemplar um espelho insolentemente fiel, e que constantemente nos coloca questões pertinentes. Modificamos um parâmetro e reagimos emocionalmente ao resultado. Modificamos outro parâmetro e essa mudança produz outra emoção, subtilmente diferente, até talvez desconcertante. […] E assim repetimos centenas de vezes este vai-vem entre o objectivo e o subjectivo, até se atingir uma espécie de adaptação mútua.

Jonathan Harvey

Ao escrever as notas de editor deste número de Ideas Sónicas/Sonic Ideas, dedicado à interacção entre instrumentos acústicos e sons electrónicos, não podemos deixar de mencionar a nossa tristeza pela partida de um dos grande criadores que trabalharam com modelos de interacção, tendo aberto novas fronteiras nesta área, e projectado-as na produção musical e cultural da actualidade. O seu pensamento criativo, bem expresso no texto acima, concebe a interacção como mais do que um mero resultado da ligação entre partes para formar um todo, tornando-se uma forma de imaginação que se inicia nos momentos mais íntimos do início da criação de uma obra, se reflecte em todo o processo de amadurecimento das ideias e se revela no resultado final. Obras como Madonna of Winter and Spring, Death of Light/Light of Death, ou Weltethos, permanecem na nossa memória e marcarão o seu espaço na História, projectando o pensamento e a sensibilidade de seu criador no futuro. A música não desapareceu, o espírito ficou, a mágica da escuta e da fruição irão continuar e permanecerão connosco. Dear Jonathan, we salute you.

Na realização da proposta temática para esta edição de Ideas Sónicas/Sonic Ideas, pareceu-nos relevante mencionar certos aspectos relacionados com a forma como os compositores e intérpretes concebem e realizam estratégias que levam à criação de modelos e práticas relacionadas com a interacção entre sons instrumentais e sons electrónicos. Sejam eles do foro tecnológico, composicional, ou mesmo da resposta que o performer concebe para solucionar os desafios propostos pelo compositor na partitura, ou na relação entre o sistema informático e o fazer musical em cada momento, tais modelos ou realizações evidenciam uma relação estreita com a forma de pensar a música, e simultaneamente são o reflexo de uma atitude perante as capacidades tecnológicas que hoje em dia estão à disposição do criador.

Assim, alguns dos temas propostos, tais como o gesto musical, a conexão entre materiais composicionais, a justaposição ou sobreposição de elementos, a continuidade ou descontinuidade, pensamento abstracto vs. experimentação laboratorial, entre outros, nos parece terem um papel importante, senão essencial, na criação de um vocabulário interactivo, integrado com um pensamento composicional, ou uma atitude interpretativa perante a obra musical. Os textos que seguidamente temos o prazer de vos apresentar, cremos que dão uma resposta substancial a uma grande parte das questões por nós levantadas na chamada de trabalhos.

Fernando Iazzetta aborda aspectos importantes relativos à forma como as diferenças entre os mundos instrumental/acústico e electroacústico, podem contribuir de forma eficaz na criação de um discurso musical unificado e coerente, aproveitando as características particulares de cada um, e observando também como essas características se reflectem (quer por semelhança, quer por oposição) na interacção entre as partes que constituem o corpo de uma obra musical.

A relação entre o compositor e os meios tecnológicos com os quais trabalha é analisada no texto de Mario Mary. É lançado um importante alerta acerca da forma como a tecnologia pode influenciar negativamente o pensamento do compositor, e dos riscos de uma adaptação, ou até de uma subserviência estética, provocada pela submissão aos paradigmas tecnológicos ao dispor.

Numa vertente mais directamente relacionada com a composição, apresentamos três textos, abordando perspectivas diferentes sobre a forma como o pensamento criativo do compositor pode interagir e usufruir das ferramentas tecnológicas. Rui Penha apresenta soluções para um problema composicional, em que um interface gráfico, representando modelos físicos projectados no espaço, se alia à produção de gestos musicais e à construção da estrutura de uma obra. Robert Ratcliffe debruça-se sobre aspectos de hibridação numa composição e a forma como a tecnologia pode contribuir de forma activa e relevante neste campo. Jorge Variego analisa o estilo de tocar de Charlie Parker através da utilização de cadeias de Markov, lançando a hipótese do seu aproveitamento na definição de uma linguagem composicional. Finalmente, Elsa Felipe aborda diversas formas como a evolução tecnológica tem vindo a permitir uma relação mais próxima entre o compositor e os sistemas interactivos, promovendo uma maior facilidade na produção de gestos musicais.

No campo da performance em que a tecnologia actua de forma activa, dialogando com o intérprete, são mostrados diversos caminhos possíveis para a comunicação entre compositor/partitura/intérprete. Os textos apresentados orientam-se na direcção de uma compreensão profunda dos modelos usados na concepção de uma obra mista, e formas possíveis para a sua operacionalização na performance, especialmente sob a perspectiva de uma melhor interacção e integração entre os sons acústicos e electrónicos. Pedro Bittencourt analisa três obras para saxofone e electrónica e a forma como a colaboração entre o compositor e o intérprete influenciou o resultado final. Felipe Amorim debruça-se sobre a relação entre o intérprete e a electrónica pré-gravada e a maneira como as suas características sonoras e gestuais podem influenciar activamente a interpretação da obra.

Esperamos que estes textos sejam do vosso interesse, que venham a suscitar diálogos, contribuições e troca de ideias. A criação musical, quer sob a forma da composição, quer da interpretação, é um processo em constante evolução e para o qual todos nós podemos contribuir activamente e de formas diversas. Aos autores aqui representados agradecemos a sua cooperação e empenho.

A todos vós desejamos um excelente leitura.

João Pedro Oliveira

 

Editors notes

When composing, the normal course of action is to imagine a sound, sometimes check or adjust it at a piano, then write it down: notate it. Is there any essential difference between such traditional ways of working and the composing of computer synthesized music? At the terminal a sound is also imagined, tried out, adjusted and then saved in program language notation: a very similar procedure. […] There is a feeling that we are contemplating a defiantly, yet faithful mirror, who constantly poses relevant questions. We modify a parameter and react emotionally to the result. We modify another parameter and this change produces another emotion, subtly different, perhaps even disconcerting. […] We repeat hundreds of times this back-and-forth path between the objective and the subjective, until it is reached a kind of mutual adaptation.

Jonathan Harvey

In the editor’s notes for this issue of Ideas Sónicas/Sonic Ideas, dedicated to the interaction between acoustic instruments and electronic sounds, I feel compelled to mention our sorrow over the departure of a great creator, Jonathan Harvey. His work with interactive models created new frontiers in the musical and cultural production of our time. His creative thinking, immortalized in the above text, perceives interaction as being more than a mere sum and connection of different parts to form a whole. Instead, it is an imaginative process which begins in the most intimate moments of the genesis of a work, reflects itself throughout the maturing process, and is finally revealed in the result. Works such as Madonna of Winter, Spring, Death of Light / Light of Death and Weltethos will remain in our memory and claim their place in History, projecting the thoughts and sensibilities of their creator. The music has not vanished, the spirit remains, and the magic of listening and enjoyment it brings will remain with us. Dear Jonathan, we salute you.

In the call for contributions for this edition of Ideas Sónicas/Sonic Ideas, it seemed relevant to explore how composers and performers design and implement strategies that lead to the creation of models and practices for the interaction between instrumental and electronic sounds. These may be technological or compositional methods, or even procedures conceived by the performer to solve challenges posed by the composer and the score, or to refine the relationship between the computer system and the actual moment of producing music. Such models or practices reveal a close relationship how music is conceived. They are a reflection of individual approaches towards the technological capabilities that nowadays are available to the creator.

Some proposed topics, such as musical gesture, connections between compositional materials, juxtaposition or overlapping of elements, continuity or discontinuity, abstract thinking versus laboratory experimentation, seem to have an important (if not essential) role in the creation of an interactive vocabulary associated with compositional thought - or an interpretative attitude towards the musical work. We believe the texts presented here give a substantial response to the questions we raised in the call for papers.

Fernando Iazzetta addresses important aspects of how the differences between the instrumental/ acoustic and electroacoustic worlds can contribute effectively to create a unified, coherent musical discourse, which takes advantage of the characters particular to each, and how they reflect (either by similarity or by opposition) the relation between the individual parts, of the whole that constitutes the body of a musical work.

The relationship between the composer and the technological means available is discussed in the article by Mario Mary. There is an important warning about how technology can negatively influence the thoughts of the composer, and the risks of adaptation, or even an aesthetic subservience, which are caused by the composer’s submission to the available technological paradigms.

We also present four texts, which are more directly related to personal composition strategies, addressing different perspectives on how the composer’s creative thinking can interact with, and make use of, technological tools. Rui Penha presents solutions to a compositional challenge, whereby a graphical representation of physical models projected in space is used to produce musical gestures, and to generate the structure of a work. Robert Ratcliffe focuses on aspects of hybridization in a composition, and how technology can play an active role in creating new hybrids. Jorge Variego uses Markov chains to analyze the style of Charlie Parker, introducing the possibility of their use to define a compositional language. Finally, Elsa Felipe discusses various ways in which technological changes lead to a closer relationship between composer and interactive systems, allowing a greater ease in the production of musical gestures.

There are many possible paths of communication between the composer / score / interpreter, especially if technology actively intervenes between each element. The presented texts propose a deep understanding of the models used in the construction of a mixed work, and possible ways in which those models may be implemented in the actual performance. The main focus of these texts leads towards a perspective of a strong integration between acoustic and electronic sounds. Pedro Bittencourt analyzes three works for saxophone and electronics, and details how collaboration between the composer and performer influenced the final result. Felipe Amorim discusses the relationship between the performer and pre-recorded electronics, and how sound characteristics and gestures present in the pre-recorded material can actively influence the interpretation of the work.

It is our hope that these texts will be of interest to our readers, and that they may provoke dialogue, the exchange of ideas and contributions. Music creation, both as composition and interpretation, is a constantly evolving process, to which we can all actively contribute. The commitment and cooperation of all mentioned authors is deeply appreciated.

We hope you enjoy reading this issue of Ideas Sónicas/ Sonic Ideas.

João Pedro Oliveira